Um Aphex Twin mais simplista e direto em seu novo EP

“Por favor, certifique-se de que leu o manual de usuário antes de tentar operar o Cheetah EP”

Essa é a frase usada na publicidade do lançamento de Cheetah. O pôster você pode ver aqui.

Aphex Twin (Divulgação/WARP)
Aphex Twin (Divulgação/WARP)

Depois de lançar Drunkqs em 2001, Richard D. James entrou em hiato de 13 anos com o pseudônimo Aphex Twin até a chegada do Syro, em 2014, que venceu o Grammy na categoria de Melhor Álbum de Dance/Música Eletrônica. Agora em julho de 2016, Aphex lança Cheetah EP, mostrando um som mais simples e cadenciado que seus trabalhos anteriores. Richard (ou Aphex Twin, ou AFX, ou…) continua sendo uma figura icônica e enigmática, mas isso é um assunto que ficará, quem sabe, para outro dia…

Capa "Cheetah EP"
Cheetah EP: 7 faixas, 33 minutos e um som mais amigável de Aphex Twin

Começando pelo título do play, que obviamente é sugestivo. Os sons foram criados no Cheetah MS800, um sintetizador inglês raro produzido na década de 90. Muitos entusiastas o chamam de estranho e bizarro, com sons únicos e também como sendo o synth mais difícil de programar que existe. Um usuário no Sonic State definiu o público-alvo do MS800 como “aventureiros, experimentalistas, pacientes e malucos”. Não é atoa que este instrumento chamou a atenção de alguém como Richard, né?

Com um ritmo marcante o tempo inteiro, o EP começa com CHEETAHT2 [Ld spectrum]. Temos uma bateria martelando nossa cabeça sem parar, com um padrão de som que vai e volta, criando uma atmosfera um pouco assustadora e que termina em silêncio. A segunda faixa, CHEETAHT7b, volta como um martelo novamente. Os sons são semelhantes aos da música de abertura, o que mantém o mesmo clima.

Depois, temos um interlúdio de duas faixas (CHEETA1b ms800 e CHEETA2 ms800), que somados duram pouco mais de um minuto, antecedendo o single CIRKLON3 [Kolkhozanya mix]. Um sample meio 8-bit inicia a música acompanhada de uma base calma. Por volta dos dois minutos entra outro sample, dessa vez funky e dançante, como podemos ver no clipe as crianças dançando. Aliás, assistam o clipe! Como disse um amigo meu no facebook (salve, Jeff!), os conteúdos visuais do Aphex são desconfortantes e perturbadores (vide Come to Daddy), e este vídeo não escapa desse padrão. É confuso e intrigante.

 

A seguinte faixa é CIRKLON 1. Segue a mesma linha da música anterior, porém com melodias constantes e algumas quebras e mudanças na beat. E sim, tem uma referência no nome dessas duas músicas também: um sequenciador multi-track chamado Cirklon, que também foi utilizado em algumas músicas do Syro. 2X202-ST5 encerra o álbum de forma mais amigável que as demais faixas, uma bateria e baixo um pouco mais complexos porém envolventes.

No geral, são músicas com um som atípico de Aphex. Beats mais lentas, com um trânsito de sons mais calmo do que estamos acostumados a ouvir. Ou seja, é um EP mais amigável àqueles que não estão acostumados ou não gostam de Aphex Twin. Tem até uma versão de CHEETAHT2 [Ld spectrum] com tempo em 140%, que se encaixa mais no perfil de seus sons anteriores.

A desvantagem do EP, dependendo do ponto de vista, é sua falta de variedade. Portanto é muito melhor aproveitado se escutado de uma vez só e por completo. Tire meia-hora que esteja sozinho(a), coloque fones de ouvido e preste atenção em cada detalhe. Não se trata de um álbum revolucionário, mas sem dúvidas é um dos melhores plays de música eletrônica de 2016.

PS.: Se o Cheetah MS800 te incendiou alguma curiosidade, você pode consultar o manual, por sua conta e risco.

 

Rick Hideki

Futuro geógrafo que flerta com o jornalismo. Esportes, western, distopias, hardcore e hip-hop são alguns interesses. Acha que The Wire é a melhor série já feita e mata saudades do adultswim no TBS.