Senhoras e senhores nós estamos flutuando no espaço: No Man’s Sky e a beleza da vida

No final dos tempos, um momento virá quando sobrará apenas um homem. Então esse momento vai passar. O homem terá desaparecido. Não vai existir nada mostrando que sequer estivemos aqui… Além de poeira estelar

NMS4Com um capa assim linda, No Man’s Sky sempre foi irresistível pra mim

Existe uma crueldade silenciosa em cada ser humano. Talvez crueldade seja a palavra errada, acho que na verdade seria algo como uma indiferença venenosa, como uma víbora às 10 para as 3 de uma terça-feira com o e-mail aberto fingindo que está trabalhando. Como o Mark Kozelek esculachando a própria esposa chamando até de bandida e dizendo que precisa de uma amante, há um ar nebulosamente malicioso até no mais aparentemente inocente tiozinho que você encontra na padaria. Nunca se sabe, talvez ele seja nazista nas horas vagas, talvez ele bique cachorros de rua, talvez ele escreva fanfic de Naruto ou Pokémon ou Sonic ou os três ao mesmo tempo. Então quando o Sean Murray subiu no palco na E3 de 2014 todo tímido para falar um pouco sobre No Man’s Sky, era óbvio desde então que o lançamento do jogo seria meio turbulento independente do resultado final. Havia algo sobre ele e sobre sua equipe que gerava uma irracionalidade espontânea só com o som de seu sotaque meio australiano e meio irlandês.

Sean era a imagem perfeita de um desenvolvedor de videogames moderno. Ele parecia ao mesmo passo nervoso e constantemente encantado com sua obra, com a chance de falar sobre ela e poder dividir esse momento com meu Deus do céu quanta gente que tem aqui. Ele nesse sentido era o inverso do Neil Druckmann, que parece estar sempre pronto pra provavelmente cantar uma música do Los Hermanos. Sean representava o espírito empreendedor que todos nós ouvimos falar tanto na faculdade, aquela coisa do sim eu posso fazer isso! Eu posso, porra!! (: Afinal, o Sean liderava uma equipe de mais ou menos uma dúzia de pessoas e eles estavam criando um jogo sobre explorar o universo. Isso mesmo tendo no portfólio apenas uma versão cartoon da série Trials. Mais do que qualquer coisa, Sean parecia um cara legitimamente legal então é lógico que não ia demorar muito até ele ser demonizado junto com a Hello Games.

No Man’s Sky estava então condenado a ser um jogo controverso, daqueles que geram sentimentos fortes e provavelmente ilógicos. Mesmo antes do lançamento você já tinha uma série de artigos que apontavam que o jogo talvez seria ruim e/ou um fracasso. Por outro lado, você tinha uma campanha de marketing feroz encabeçada pela própria Sony que prometia um céu cheio de luas que brilham lá no céu e se você me pedir eu vou buscar só pra te dar. Você teria um universo inteiro à sua espera com infinitos planetas para você explorar, descobrir, catalogar e batizar as criaturas dinossáuricas encantadoras que ali habitam com nomes excessivamente imaturos. Ou seja, o jogo da Hello Games existia entre extremos quase tão gigantes quanto seus multicoloridos planetas criados por geração procedural. Aquele velho caso de amor e ódio, entre tapas e beijos e que mesmo na cama provoca loucuras. Meu Deus esse parágrafo ficou estranhamente musical. O que eu quis dizer é que existindo num meio tão frágil inevitavelmente ia dar merda, você já tinha uma crítica meio cética e você agora a alimentava com a possibilidade de o jogo estar recebendo hype demais? Ah não, alguém avise pro Jim Sterling, ele precisa salvar a humanidade desse trágico destino através de uma análise dolorosamente chata do como nós talvez exageramos aqui!!!

 

NMS3Jim esta bravo e quer que você saiba disso!!!

 

Se eu pareço defensivo com o jogo, bom, talvez eu seja mesmo, mas mais do que isso o meu problema é na verdade com jornalistas espalhando desinformação como se fosse verdade. Comparar NMS com Spore é uma das coisas que me trinca os ovos, considerando que na verdade Spore teve todo tipo de interferência por parte da empresa que publicaria o jogo, o que por sua vez fudeu com o jogo dos sonhos do Will Wright e o levou a sair da indústria de videogames. Então não vamos fazer isso né, Spore é uma triste história de uma das desenvolvedoras mais talentosas da história tendo sua alma consumida pela EA, enquanto o No Man’s Sky é um jogo com limitações que sempre seriam inescapáveis considerando o contexto no qual ele foi criado. O sentimento de que talvez existiria excesso de hype em torno do jogo rapidamente se tornou um problema, como se eles tivessem feito daquelas promessas enlouquecidamente apaixonadas que nunca se concretizariam. CONVERSA DE TRAVESSEIRO BABY! Tudo bem que uma premissa tão enorme mexe com a nossa imaginação e seria impossível não esperar mundos e fundos, mas o jogo é relativamente o que nos foi prometido desde o início. Relativamente. Um esquisitão no reddit compilou as coisas que foram mostradas em trailers ou comentadas pelos desenvolvedores e que não existem no produto final. Isso nunca é bom e a lista beira o indefensável, ainda assim a experiência é mais ou menos aquela que foi falada desde que o jogo foi anunciado. Você viaja por infinitos planetas explorando, descobrindo, catalogando e batizando as criaturas dinossáuricas encantadoras que ali habitam com nomes excessivamente imaturos.

Quando você começa o jogo aparece logo de cara na tela inicial um mapa com os sistemas que você poderá explorar um dia, dia esse que parece infinitamente distante quando você passa a primeira meia hora do jogo explorando seu primeiro planeta em busca de recursos naturais para consertar sua nave. Esse elemento de sobrevivência do jogo vem gerando reações adversas e eu consigo entender o motivo, mas pra mim é absolutamente perfeito. Você está literalmente perdido no meio do nada com uma vastidão massacrante tão perto e ainda assim tão impiedosamente longe, respirando no seu pescoço te lembrando que você é um só enquanto o céu é de fato eterno. É uma mensagem sutil de que sim, o universo está aqui do seu lado, mas você ainda está na merda quebrando rochas tentando descobrir se elas são comestíveis. Quando você finalmente consegue consertar sua nave, é hora de ir embora e meu bom Deus esse é um momento absolutamente incrível. Há uma paz estranha em deixar a atmosfera do seu planeta e ver o horizonte na ponta do seu nariz e a Hello Games acertou em cheio aqui. Sair em direção às estrelas é simplesmente muito satisfatório em todos os níveis e todo o espetáculo é estarrecedor no melhor sentido da palavra. Você se sente exatamente como o Lenny em Las Vegas.

 

NMS8Opa, acho que eu posso ver o pavilhão da Marejada daqui!

 

E então o jogo meio que puxa o freio de mão. Por mais que isso pareça uma contradição, a sua experiência começa a ficar meio repetitiva apesar de ser constantemente imprevisível dado a forma como os mundos são gerados. Ou melhor, previsivelmente imprevisível, há simplesmente um limite na imaginação de cada algoritmo. Como eu disse no começo do texto, o ser humano é meio cruel e cuzão às vezes, mas como no exemplo da música do Red House Painters, há também uma beleza nessa mente conturbada humana ó tão humana. Então os planetas não serem gerados diretamente pela nossa criatividade faz com que eles sejam notoriamente menos memoráveis. Uma das críticas mais válidas que o jogo vem enfrentando é de que o conteúdo é relativamente raso. Você vai encontrar aliens parecidos que vão te propor enigmas parecidos, você vai procurar monólitos que também vão te oferecer algumas charadas espirituosas e frequentemente meio esquisitas, você vai atirar nas sentinelas que protegem os planetas porque foda-se a polícia, e num geral você vai passar suas horas fazendo as mesmas coisas de novo e de novo e de novo e de novo.

E ainda assim em nenhum momento eu perdi o interesse. Parte disso se explica pela trilha sonora absolutamente monumental feita pelo 65daysofstatic, que oferece aqui uma coleção de músicas deliciosamente atmosféricas e melodiosas o suficiente para grudar na sua cabeça. O trabalho não é tão bombástico quanto a trilha do Hans Zimmer em Interstellar, ao invés o 65dos oferece um exercício admirável em autocontrole e segue muito mais a linha das ambientações hipnóticas do Brian Eno. Como um bom disco do Tangerine Dream, as músicas passam inexplicavelmente uma sensação de explorar o inexplorado, o que é ajudado também pelo quão bem cada instrumento soa. Tudo soa no lugar certo e a mistura conceitualmente orgânica e mecânica funciona de uma forma fantástica. Considerando a OST como um álbum separado, talvez seja o melhor disco de uma banda que se nos últimos anos deu uma desacelerada, na época do auge de popularidade do post-rock oferecia uma alternativa bem admirável para o gênero.

 

NMS1Nessa hora eu não me oporia a escutar um Van Halen… Nessa ou em qualquer hora da minha vida

 

Os gráficos não são espetaculares de forma alguma, mas eu amo as cores neon altamente saturadas. Mais do que a resolução ou a fidelidade visual, o importante aqui é como o No Man’s Sky nunca deixa de parecer uma capa de livro ou filme de ficção científica, o que dá ao jogo uma estética única. Talvez essa fixação com tudo envolvendo a ficção científica seja a principal força do NMS. O universo é irresistível para quem cresceu obcecado por naves, estações espaciais e outras contravenções tecnológicas que só poderiam existir na fronteira final da imaginação. Ele grita uma paixão em cada pequeno detalhe de seu imaginário que eu absolutamente compartilho. Foi feito por gente que nem eu para gente que nem eu, o que é especialmente incrível nesse caso porque ser nerd ou qualquer termo do gênero hoje em dia é meio legal, mas quando eu estava crescendo nem sempre era o caso. Ter esses interesses nos idos anos 2000 não era exatamente a coisa mais socialmente aceitável do mundo, então é meio catártico ver esse mundo esfregado na sua cara tão irrestritamente.

 

NMS2Um amigo meu tinha essa Millenium Falcon de Lego e eu o odeio até hoje

 

Mesmo com esse estrondoso desbunde visual e sonoro, a parte mais lenta do jogo é de fato meio questionável e eu realmente consigo entender o que levaria alguém a não desfrutar seu tempo com a obra da Hello Games. Mesmo assim, o supracitado proverbial freio de mão é eventualmente arremessado pela janela e o jogo vai constantemente ficando mais interessante. Não vou dar spoilers aqui, mas à medida que você vai melhorando sua nave e acessando novos sistemas a coisa ganha ares épicos numa simbiose insana entre breguice e absoluta e pura beleza. Como não poderia deixar de ser, não é o seu destino que conta, mas sim a jornada e apesar de algumas lombadas na estada, NMS te oferece uma via que dificilmente você irá esquecer. Falando de spoilers, a história é amplamente aberta e até meio opcional. Você pode seguir o caminho que quiser em busca do seu suposto criador ou do centro da galáxia, mas é você que determina a experiência que quer ter. Se você for mais contemplativo, há obviamente muito a ser visto e conhecido, mas se você for mais direto e objetivo, há também uma série de rotas que te permitem chegar com certa rapidez no seu destino. Existem alguns elementos de design meio obtusos que te atrasam um pouco, mas nada que chegou a atrapalhar muito o meu divertimento.

No final das contas, o meu saldo com No Man’s Sky é altamente positivo. Eu gostei do jogo ser mais voltado para a sobrevivência do que para qualquer outra coisa, porque vamos ser sinceros, na vida real também tudo o que fazemos é sobreviver nesse universo insano, então é um direcionamento que filosoficamente me agrada profundamente. Cada centímetro de NMS é banhado numa ótica exclusivamente sci-fi. Os diálogos são histriônicos como o gênero manda e embora o tom do jogo seja bastante diferente de algo como Gentlemen Broncos, há sim uma certa autoconsciência que dá uma leveza muito interessante para o andamento de cada contexto pelo qual você irá passar. E esses contextos vão ser meio repetitivos e isso pode te cansar e te fazer querer desistir, mas insistir no jogo revela uma criação bastante peculiar numa indústria cada vez mais transbordando com jogos parecidos. No Man’s Sky é uma pincelada neon num céu monocromático e nós precisávamos disso.

 

NMS5Sim, você pode atirar nesse robô. Na dúvida, atire em tudo

Eu comecei o texto falando da crueldade humana e do Sean Murray sendo um símbolo do je ne sais quoi que o jogo significava e o que eu quis dizer é que ele e sua minúscula equipe sempre seriam alvo de idolatria bovina ou críticas pesadas, algumas justas e outras nem tanto em ambos os casos. Algo na essência do projeto e de seus criadores inevitavelmente geraria essa reação fight-or-flight bizarra por parte do público e da crítica, há algo sobre uma empresa assim pequena fazendo um jogo assim grande que incita reprimendas ou enaltecimentos igualmente passionais. Tente desconsiderar ambos antes de jogar, o jogo é surpreendentemente moderado em seu tom e funciona como uma carta de amor aos foguetes de micro-ondas e civilizações alienígenas intraduzíveis. Afinal, Lando não é um sistema, ele é um homem, porra!

Marcelo Shaw

Das cinzas tóxicas da Segunda Guerra do Vietnã, nasce um novo tipo de jornalista renegado. Parte homem, parte máquina, inteiro Cyber Commando.