Red Mess: prog e stoner caminham permeados pelo caos

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Psicodelia e som pesado se misturam na Red Mess (Foto: Reprodução/Red Mess)

Esta foto não é esteticamente perfeita de propósito: as cores puxam muito o vermelho e ela está cheia de ruídos. Isso porque retrata perfeitamente a Red Mess, trio de stoner rock de Londrina que se propõe a fazer justamente uma bagunça sonora intensa, mesclando stoner e rock progressivo, numa atmosfera sombria e densa. As mais recentes vieram em forma de vídeo: Daybreak’s Dope já lançado no YouTube, e Trapped in my mind, ainda sem data de lançamento definida. 

Se até mesmo as fotos da banda seguem um conceito pré-definido, desnecessário dizer que os clipes exaltam a mesma identidade. Trapped in my mind abre o primeiro EP, e terá um roteiro baseado na letra da música. O clipe foi gravado de forma caseira e será utilizado no Trabalho de Conclusão de Curso de uma amiga da banda, que cursa Artes Visuais. Já Daybreak’s Dope, produzido por Renan Casarin e gravado durante um final de semana, dá vazão a energia e a intensidade da música, marcada pela mescla de elementos densos e progressivos.

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Red Mess com o produtor Renan Casarin: barulho sob o filtro vermelho resume a intensidade da banda (Foto: Reprodução/Red Mess)

Daybreak’s Dope faz parte do mais novo trabalho da Red Mess: o EP Drowning in Red, lançado em 2015, composto por duas faixas e gravado em equipamentos analógicos. De certa forma, é uma continuação de Crimson, compilação lançada em 2014. A temática de ambos é a mesma, já que as composições foram feitas em um curto intervalo de tempo.

“A essência que norteava nossas músicas em Crimson continua em Drowning in Red. A sonoridade dos dois materiais possuem semelhanças que são complementares entre si, fechando um conjunto que são base para o álbum que pretendemos gravar em breve”, explica o vocalista e guitarrista Thiago Franzim.

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“Bad Trip” na capa de Drowning in red (Arte por: Gabriel Araújo e Vitória Plácido/Estúdo BDC)

Estes dois EPs devem ser o último material que os fãs ouvem antes do lançamento do primeiro álbum do grupo. Douglas Villa, baterista, comenta que agora os planos são de “no ano que vem marcar várias datas pelo país, cair na estrada mesmo, fechando uma turnê de divulgação do primeiro álbum”. No momento, o foco é em shows e na produção do disco.

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Lucas Klepa: “A bagunça é inerente a nós três” (Foto: Reprodução/Red Mess)

Intensidade e caos compõem o conceito da Red Mess

Dois elementos principais ajudam a explicar a complexa identidade da banda: a bagunça e o vermelho, como o nome sugere. A ideia de usar a cor remete ao seu significado: sempre associada ao amor e à paixão, o vermelho também simboliza o instinto. “Eu até diria que quando o ódio tira a razão, os pensamentos se tornam rubros, e é essa monocromia que nos tira o discernimento dos fatos. Nós deixamos que nossas músicas, de maneira humanista e caótica, expressem esse instinto irracional. Cegados pela venda vermelha”, define o baixista Lucas Klepa.

Em Crimson, o vermelho também aparece como uma referência à banda de rock progressivo King Crimson. All hail the Crimson King, aparece na descrição do EP no YouTube, inclusive. Apesar de, à primeira vista, a Red Mess parecer uma grande onda de sons pesados e arrastados, o prog é facilmente percebido após uma ouvida mais atenta, apesar de não ter nada de parecido com o clima calmo do King.

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“Cegos pela raiva vermelha”, Red Mess faz stoner rock marcado pela intensidade (Foto: Reprodução/Red Mess)

O prog é fundamental para a proposta sonora da Red Mess, apesar de o som ter toda a cara de chapação do stoner. “Além das complexas estruturas musicais, o prog nos remete a busca por combinações de notas não convencionais, assim, produzindo sons diferenciados e de um jeito peculiar que precisam ser mais explorados pelas novas gerações musicais”, diz Thiago.

Por fim, na página do Facebook do grupo, o gênero está marcado como “red stoner”. A terminologia foi criada pelo trio para definir seu estilo agressivo, mas que mistura elementos de diversos outros gêneros. “Misturamos várias outras coisas como o progressivo e experimental ou qualquer outra coisa que nos ocorrer. Não nos preocupamos muito em atender a um estilo específico”, complementa Klepa.

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Red Mess, da esquerda para a direita: Thiago Franzim na guitarra e vocal, Douglas Villa na bateria, e Lucas Klepa no baixo (Foto: Reprodução/Cacau Shinoda)

O caos começa a surgir justamente nesta mistura sem padrões definidos. O som é psicodélico, cria a atmosfera de uma trip tóxica, mas ao mesmo tempo é lamacento, lento e pesado. Tem altos e baixos, passa da lentidão para uma explosão enérgica. Esta desordem é quase como um reflexo dos três músicos que compõem a banda. Para Klepa, “a bagunça é inerente a nós três. É como um caos que tentamos sistematizar, ainda que caoticamente”.

As composições são coletivas e, às vezes, organizadas. Ou a música já tem um esqueleto pré-definido que é lapidado pelos três, ou as jam sessions dão origem à novas canções. Para o primeiro álbum, o baterista Douglas Villa menciona a participação dos três em todas as músicas. “As músicas estão sendo compostas com uma pitada de cada integrante, o que promove uma maior liberdade entre nós”.

A confusão da mente humana tem sido o combustível inicial para as letras, apesar de elas não se limitarem apenas a isso. “Nós gostamos das aventuras mentais que o cérebro humano é capaz de empreender, nossa própria consciência nos remete ao caos, a bagunça. Cabe muito bem ao nosso som falar sobre essas coisas”, fala Thiago. Junto de Lucas Klepa, ele é o principal letrista do grupo.

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Fuzz e afinações baixas: cordas de Thiago e Lucas criam atmosfera densa nas músicas (Foto: Reprodução/Guilherme Novaes)

Além da liberdade de composição que o rock progressivo permite, essa mistura é fruto da diversidade de influências do trio: desde o Black Sabbath (claro) e outros gigantes do stoner, até jazz, música eletrônica, e mesmo funk carioca. “Somos muito abertos para qualquer tipo de manifestação e todas elas nos trazem algo que podemos usar em nossas musicas”, conta Thiago.

Internet ajuda a reunir a cena stoner nacional

Red Mess data de 2012. Tudo começou com Dragonaut, do Sleep, quando os três se juntaram num ensaio. Douglas e Thiago são amigos de infância e dividiam o gosto pelo rock n roll. Quando começaram a tocar juntos, em uma banda chamada Sküllage Coopers, descobriram Lucas, que tocava Pink Floyd com outra banda, na sala ao lado. Daí, um convite no Faccebook uniu os três. Foi dele a iniciativa de que tocassem o clássico do Sleep (e do stoner rock), dando início a caminhada do grupo pelo gênero. “Vimos como aquilo era mágico e potente. Na mesma hora nos apaixonamos e caímos de cabeça nesse gênero”, diz o baterista.

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Gosto pelo stoner rock uniu os três jovens (Foto: Reprodução/Red Mess)

A partir daí, a internet ajudou a impulsionar o trabalho autoral e a criar contatos com outras bandas, tanto da cena paranaense quanto do stoner nacional. “A cena aqui no Sul começa a mexer os pauzinhos, com eventos surgindo e até um Stoner Fest”, afirma Douglas. Em Londrina, Douglas cita duas bandas: Dizzaster e Mescalha. Já a nível nacional, destaca como suas preferidas Muñoz, Hellbenders, Overfuzz e Fuzzly.

Klepa tem a mesma opinião: aos poucos, músicos independentes estão se organizando. “É agoniante ver artistas valorosos carentes de um público a sua altura, mas por outro lado, é visível o crescimento da cena a cada dia que passa. Temos boas expectativas para os próximos anos”.

Semana passada foi a Cattarse, do RS, agora a Red Mess do Paraná. Na semana que vem, vamos de stoner Catarina pra fechar nossa viagem pelo Sul. DESCUBRAM.

Elyson Gums

Estuda jornalismo porque não deu certo como zagueiro. Gosta mais de batata do que de estudar, e assiste muito desenho e filme pastelão.