Os mundos ocultos de Seconds

2015 é um ano sem dúvida feliz para os fãs de Bryan Lee O’Malley. Onze anos após o lançamento da primeira edição da cultuada série em quadrinhos Scott Pilgrim vs the World, O`Malley lançou neste ano Seconds, uma graphic novel adulta, com enredo mais maduro e um leve tom de fantástico, sem perder a essência do quadrinista canadense que conquistou fãs do mundo todo.

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Seconds conta a história de Katie, um jovem de 29 anos que tem problemas em lidar com sua fase atual da quase meia idade, enquanto luta pelo sonho de ter seu próprio restaurante. A trama ocorre quase integralmente dentro do restaurante no qual Katie trabalha, com o mesmo nome do quadrinho, e mostra Katie como uma chef de sucesso, porém não muito satisfeita com as condições atuais do restaurante.

Nesse ambiente familiar, um acidente com uma das funcionárias provoca em Katie uma espécie de choque de realidade, que a leva a descobrir uma “fórmula mágica” para mudar o passado, oferecida por uma estranha menina de cabelos brancos que aparece em seu quarto na noite do acidente. Katie só precisa: 1 – escrever seu erro em um bloco de notas. 2 – comer um dos cogumelos que encontra na gaveta de sua cômoda. 3 – ir dormir. No outro dia, quando acordar, o acidente não terá acontecido e sua colega de trabalho estará bem.

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Primeiramente, Seconds é uma história sobre segundas chances. Afinal, quando Katie percebe que encontrou uma forma de mudar algo que saiu extremamente errado em seu dia, a garota inicia uma jornada por respostas e soluções a cada mudança que promove no seu universo. Porém, o que inicia como um ato de bondade de Katie, torna-se uma preocupante ferramenta nas mãos de uma garota que começa a usar essa “fórmula”em benefício próprio. Se uma segunda chance lhe foi oferecida, por que não uma terceira? Uma quarta, décima… afinal, quem de nós não gostaria de mudar, todos os dias, algo que não saiu exatamente como o esperado?

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A fórmula central de O’Malley não é a mais original, já que as consequencias de se mexer com o tempo são vistas ao longo dos anos em diversas histórias. Muda-se uma pequena coisa, insignificante aos seus olhos, e a partir daquele momento, tudo começa a mudar, até que a própria realidade que você habita já não lhe pertence mais. E o mesmo ocorre com Katie. A cada dia que acorda de uma mudança, está em um mundo diferente, com uma vida cada vez mais distante da qual se lembra e memórias de acontecimentos que sequer  presenciou.

Porém, se Seconds se apropria de uma fórmula tradicional, ele inova ao dar um motivo para essas mudanças e nos apresenta os agentes por trás de controlar as consequências de tantas segundas chances: os espíritos do lar. Com a inserção desses elementos fantásticos, O’Malley mescla em sua narrativa as dores e inseguranças de Katie e a história desses espíritos, os quais cada casa possui o seu e estes são responsáveis por cuidar para que tudo siga em harmonia no lar.

Além disso, a jornada de Katie é também uma jornada de crescimento e auto-conhecimento, da descoberta da empatia, há muito esquecida pela jovem, e da valorização da amizade em um momento da vida em que estar sozinha parecia a única maneira de encontrar a si mesma.

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Mesmo apresentando uma história sem sequência e um pouco mais adulta que Scott Pilgrim, Seconds tem a essência de O’Malley e as passagens cômicas, os traços estilizados e, principalmente, as marcantes e engraçadas legendas de sentimentos continuam presentes em mais uma obra do autor. Além disso, para os poucos que conhecem sua obra anterior a Scott Pilgrim, a também graphic novel Lost at Sea, as diferenças não serão incômodas ou perceptíveis, pois o estilo de enredo e apresentação de personagens de Seconds é mais semelhante a esta do que a Pilgrim.

Seconds concorreu em 2015 ao Eisner Awards, na categoria Melhor Álbum Gráfico Inédito, na 27ª edição do mais importante prêmio voltado ao universo dos quadrinhos norte-americanos. A graphic novel tem previsão de lançamento no Brasil para dezembro de 2015.

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Leonardo Costa

Jornalista e redator publicitário (sim, isso é possível). Constantemente surpreso com a capacidade humana de achar que sua opinião nas redes sociais vai salvar o mundo.