O que aconteceu naquela noite?

(créditos: William Lima fotografia)
(créditos: William Lima fotografia)

O que aconteceu naquela noite eu ainda estou tentando entender. Virada de ano novo e nada era esperado. Uma boa bebedeira com os amigos era certeza. Um bom momento para acabar com a consciência antes de se renovar. O ano novo viria depois da meia noite, o início de um novo ciclo, coisa que por si só já é cheia de expectativas e esperanças. Nada se sabe, muito se teme e mais ainda se deseja. No meio disso consegui ver um certo cabelo vermelho um rosto lindo. Normalmente seria uma mulher que nunca me aproximaria, mas por demônios, é ano novo! Me aproximo, visto meu melhor sorriso e recebo um lindo de volta. Depois muitos outros vieram: sorrisos, risadas e até gargalhadas. Então se tudo estava ótimo por que não tentar? Bolo uma estratégia infalível tentando me despir de toda a minha insegurança. E é isso! O próximo abraço, com uma frase de efeito e um toque sutil em seus lábios, vai ser perfeito. Nada disso aconteceu, porque era pra ser mais do que perfeito. O abraço aconteceu, mas antes de qualquer palavra minha, ela me beija, sem cuidado, com muita vontade e gosto. A primeira noite e o primeiro contato. Nunca conseguiria esquecer o cheiro de boneca que aqueles cabelos tinham, só pra completar a figura que não parecia ser real. Ainda estou tentando entender.

O que aconteceu naquela noite eu ainda estou tentando entender. Próximo do carnaval, finalmente conseguimos sair. Ambos tentando fugir dessa festividade combinamos um bar de rock. Eis que chego 27 minutos precisamente atrasados. Esses 27 minutos viram piadas que curam a impaciência. Mais um sorriso, como sempre o mais lindo.  Rumamos para o refúgio de pedra para ouvirmos boa música. Lugar não tão legal, companhia mais que perfeita. Bebendo cerveja e comendo queijo porque era o que ainda tinha. Mais beijos e sorrisos ao longo de uma noite que parecia não ser certo ter tanta sincronia. Era tão bom que não dava pra se importar com nada, só com a felicidade. Precisávamos ficar juntos e ficamos. Dias felizes, dias de nirvana.  Noites felizes, noites de fogo. Um aumento na energia que não parecia ter fim. Tudo é lindo quando o mundo é só feito de certezas, mas quando algo se apresenta incerto até o mais duro diamante se desgasta. A falta de apoio e a dor que aumentava sem ser percebida começa a causar distanciamento nessa relação que não parecia possível de dar errado. A separação era tão dura que, por mais que tentássemos, não acontecia. Nos enganávamos, mas ainda estávamos ali, querendo, desejando fazer dar certo. Os sorrisos passam a ser lágrimas, certezas se tornam inseguranças, as vontades se tornam medo até que quase mais nada é possível. Mas, ainda assim, afastar-se não é algo que poderia acontecer. Ainda estou tentando entender.

O que aconteceu naquela noite eu ainda estou tentando entender. Uma dor, uma lesão que não sara e só dói mais em dias frios. Aquele ponto do seu sentimento que já não pode mais ser tocado sem doer aquela dor aguda. Num momento em que as palavras estão mais livres do que deveriam e o ressentimento se torna o ditador do texto. Verbetes sem propósito saem de mim e formam uma arma cruel que acerta exatamente onde já não se aguenta mais. Quando se percebe já é tarde demais e só tem espaço para o arrependimento. Não existe espaço para perdão, nem sequer mais vontade de ser perdoado. Um certo alívio frio mas nem um pouco confortável toma conta de tudo. Aquele momento em que algo acaba, mas sem deixar pista do que pode vir a ser daqui para frente. Dias passam, mas o esquecimento nunca vem. O consolo de que é melhor assim também não alivia como deveria. Todas as incertezas agora dão lugar a única certeza: o ciclo se completou. Aquele ano novo, depois de idas e vindas, quase durou três. Sempre surgem questões a mente, tarde da noite, quanto ao que deveria ter acontecido, como que tentando entender o que poderia ser a cura para esse inevitável. A perfeita imperfeição. Não se encaixa como deveria independente das semelhanças e coincidências inegáveis. Talvez o tempo, talvez o momento não fosse o certo. Mas acima de tudo uma coisa é certa: injusto seria fazer alguém esperar pelo momento certo. Entretanto, tudo que se precisa é de um momento errado. Palavras erradas por motivos errados, esquecendo-se dos valores e de todos os momentos e de todas as verdades e de todos os sorrisos. A impressão era de que tirava um espinho que estava encravado até o osso, mas diferente do esperado, isso só causou mais agonia e não dá mostras de facilitar a cicatrização. Foi tudo muito estranho e tudo de uma vez e agora as incertezas dão lugar a uma certeza: acabou.  Ainda estou tentando entender o que aconteceu naquela noite.

Vinicius de Jesus Correia

Wannabe designer que um dia ainda há de se formar. Apreciador de filmes ótimos e péssimos, e séries de mesma qualidade. Jogador de rugby nas horas vagas e até quando os joelhos aguentarem. Amante de reticências...