O Cinema Inteligível de Woody Allen

Um dos principais nomes do cinema ainda na ativa, Woody Allen possui uma vasta e convidativa filmografia

Woody em uma de suas apresentações de clarinete (Ilya Mauter/Creative Commons)
Woody em uma de suas apresentações de clarinete (Ilya Mauter/Creative Commons)

Woody Allen é marcado pelo jazz, por Manhattan e por seus questionamentos sobre o amor, a vida conjugal e se há mesmo um sentido em tudo isso. O sujeito atrapalhado de cabelo bagunçado que na década de 60 era um simples comediante — de senso crítico afiado e piadas certeiras, é hoje um senhor octogenário. Um dos principais cineastas americanos na segunda metade do século XX e uma referência em humor descontraído e inventivo — ainda que trate dos mesmos problemas, sempre por via de uma ótica diferente, o cinema de Woody Allen é descomplicado e de fácil identificação.

Woody escrevia esquetes para a televisão e pequenas histórias que eram publicadas com certa frequência na revista New Yorker*. Era comediante convidado de alguns programas, também escrevia peças teatrais e começou a apresentar o próprio show stand-up. Entre seus monólogos forjou a persona do intelectual inseguro e hipocondríaco que o caracteriza. Seu timing e entendimento da vida e da Nova York ao seu redor logo o levaram para o cinema, que como sabemos, foi onde consolidou a sua prolífica carreira.

Como havia conquistado destaque e relevância já nos primeiros anos como diretor, o tempo solidificou o seu nome como uma força criativa. Woody Allen produziu bons filmes em todas as suas fases. Sempre analítico e guiado pelas próprias convicções, se reinventando quando necessário, sem ligar para o aval do público e da crítica. Acumulando indicações e prêmios, assim como amargas notas que o classificavam esnobe e ingrato. O ponto que melhor pode definir isso são os quatro Oscares da Academia por “Noivo Neurótico, Noiva Nervosa” — Melhor Filme, Melhor Diretor, Melhor Roteiro Original para Allen e Melhor Atriz para a então sua esposa e parceira Diane Keaton — seguidos por uma recepção catastrófica para o seu trabalho seguinte e primeiro filme dramático, “Interiores”.

Com o tempo, o mesmo Interiores e o posterior “Memórias” conquistaram a apreciação de seu público. Foram necessários anos para entender as intenções de Woody com filmes completamente diferentes de tudo que havia feito até ali. O primeiro completamente denso e temperado pela angústia de suas protagonistas. O segundo, realizado após “Manhattan”, um longa em sua forma clássica, é uma resposta aos críticos e a percepção pública. Os dois recheados de cinema europeu. O aval para realizar filmes mais intimistas só veio na metade da década de 80, quando encontrou força e inspiração em seu casamento seguinte com Mia Farrow. Após “Zelig” e “A Rosa Púrpura do Cairo” dois de seus trabalhos mais emblemáticos, vieram filmes como “Setembro” e “A Outra” que mais uma vez destoavam do padrão tragicômico do diretor. “Crimes e Pecados” é uma epifania que mistura o que há de mais ácido e perspicaz em todas as suas histórias, tanto que serviu como estrutura para o excelente “Match Point” que viria formar-se dezesseis anos depois.

Há mais de quatro décadas trabalhando incansavelmente, Allen produz quase um filme por ano. E nas últimas duas, consegue trabalhar pontualmente com seu período anual. Ele é o responsável pelo argumento, por cada diálogo e cada situação. Assim que termina um filme, começa a trabalhar no próximo já no dia seguinte. Pouquíssimos são os artistas que filmaram nesse ritmo em nível tão satisfatório. São quase cinquenta filmes lançados desde “O Que Há, Tigresa?” — a maioria deles ótimos, alguns são espetaculares. A filmografia não perdeu nada com o tempo, pelo contrário, conquista novos fãs e tem certa relevância para o cinema. Seus principais filmes melhoram quando revisitados.

Em cada produção, Woody deixa um pequeno fragmento de si próprio. Seus protagonistas são quase autobiográficos, ao mesmo tempo em que também são simples personagens. É nítido quando o autor fala, mesmo por meio de papéis que não sejam os interpretados por ele ou pelos responsáveis por encarnar o intelectual super ansioso. Também fala por situações absurdas que somente ele é capaz de construir. Seu trabalho não tem vergonha em cultuar as suas referências — cita os mestres da literatura russa, Cole Porter, os irmãos Marx, o cinema expressionista alemão, ChaplinBergman e Fellini diretamente para que o expectador busque por conta própria a fonte poética que ajudou a edificar a sua criação. Isso aproxima o público dos grandes mestres a quem presta homenagem.

Questionar e entreter não são tarefas fáceis, mas imagine você, fazer isso há tanto tempo e com tamanha eficiência. Woody Allen trabalha dentro de seus limites e de vez em quando é exagerado, mas nunca artificial, e por isso continua atraindo novos cinéfilos. Por instigar e incluir, sempre com um toque de mágica.

Estão listados a seguir vinte dos melhores filmes dirigidos por Woody Allen. Não se trata de uma seleção definitiva, mas um guia com obras de todas as fases da sua carreira para quem deseja conhecer melhor o diretor. Agendando, é possível assistir um por semana e mergulhar numa das filmografias mais gostosas dentre os cineastas conhecidos. Há comédias simples, mais intimistas e até uma ficção científica. Sua obra é versátil e a porta de entrada perfeita para quem tem interesse em desfrutar do melhor que a sétima arte pode oferecer.

ESSENCIAIS:

Noivo Neurótico, Noiva Nervosa (Annie Hall), 1977 | imdb

Interiores (Interiors), 1978 | imdb

Manhattan (Manhattan), 1979 | imdb

Memórias (Stardust Memories), 1980 | imdb

Zelig (Zelig), 1983 | imdb

A Rosa Púrpura do Cairo (The Purple Rose of Cairo), 1985 | imdb

Hannah e Suas Irmãs (Hannah and her Sisters), 1986 | imdb

Crimes e Pecados (Crimes and Misdemeanours), 1989 | imdb

Match PointPonto Final (Match Point), 2005 | imdb

Meia-Noite em Paris (Midnight in Paris), 2011 | imdb

PARA TAMBÉM CONFERIR:

O Que Há, Tigresa? (What’s Up, Tiger Lily?), 1966 | imdb

Tudo que você sempre quis saber sobre sexo, mas tinha medo de perguntar* (Everything You Always Wanted to Know About Sex*), 1972 | imdb

Dorminhoco (Sleeper), 1973 | imdb

A Última Noite de Boris Grushenko (Love and Death), 1975 | imdb

A Era do Rádio (Radio Days), 1987 | imdb

Tiros na Broadway (Bullets Over Broadway), 1994 | imdb

Desconstruindo Harry (Deconstrucing Harry), 1997 | imdb

Trapaceiros (Small Time Crooks), 2000 | imdb

O Escorpião de Jade (The Curse of the Jade Scorpion), 2001 | imdb

Melinda e Melinda (Melinda and Melinda), 2004 | imdb

BÔNUS:

Os filmes abaixo não são dirigidos por Woody Allen, mas contam com a sua participação e conduzem a sua aura. Também são divertidos e recomendáveis, vale a pena conferir.

Testa de Ferro por Acaso (The Front), 1976 — Martin Ritt | imdb

Paris-Manhattan (Paris-Manhattan), 2012 — Sophie Lellouche | imdb

Sonhos de um Sedutor (Play it Again, Sam), 1972 — Hebert Ross | imdb

Woody AllenUm Documentário (Woody Allen, a Documentary), 2012 — Robert B. Weide | imdb

*Algumas das colaborações de Woody para a New Yorker podem ser encontradas no livro Cuca Fundida, publicado no Brasil pela editora L&PM

Gabriel Caetano

Bacharel em Comunicação Social pela Faculdade Pitágoras de Divinópolis-MG. Gabriel Caetano é publicitário, fotógrafo e cronista de cinema. Apaixonado por arte, futebol e cultura latina.