No oitavo dia Deus criou Turok

O jogo de Nintendo 64 traz a nostalgia de tempos atrás

Eu fiquei um tempo excedente olhando para o nada na minha alma tentando começar esse texto. Pensei em citar alguns exemplos da minha infância, sobre como eu conheci Turok na casa de um amigo entre inesquecíveis tardes meio esquecidas jogando WCW vs. nWo: World Tour e assistindo seriado de porradaria na saudosa Rede Manchete. Isso não seria exatamente justo porque eu tenho uma história envolvendo nostalgia com basicamente todos os cartuchos de Nintendo 64, por que eu falaria sobre isso ao invés de lembrar do cheiro de kibe frito na lanchonete ao lado da locadora onde eu aluguei Mischief Makers, ou da vez que eu escolhi GT 64 ao invés de Mystical Ninja Starring Goemon e me arrependi dolorosamente pelos próximos 100 anos, ou ainda a vez que eu peguei Harvest Moon 64 emprestado e joguei madrugada adentro sem parar absolutamente encantado com a minha plantação de tomates. Como todo console da Nintendo, há uma mística indescritível no Nintendo 64. Não é sobre jogar videogames, é sobre colecionar histórias pelo resto da vida.

Não, mas isso não ficaria legal. Pensei então em dizer o quão metaleiro o jogo é. Sério, você joga como um índio marombado que caça dinossauros e outros maus elementos com todo tipo de artilharia ultra violenta em diversos labirintos altamente estilizados. O imaginário é glorioso, você atravessa as Ruínas e chega nas Catacumbas, massacra sem qualquer piedade absolutamente tudo que existe na Selva e esbarra na Cidade Antiga, escapa da Terra Perdida e chega no CONFRONTO FINAL. Sério, você poderia dizer isso sobre o seu dia? As fases da sua vida são O Ônibus, O Trabalho, A Faculdade, O Chefe, A Depressão Profunda

Então comecei a ter todo tipo de ideia surreal. Lendo sobre o novo filme de Pokémon ter estreado no Japão com a pior bilheteria da franquia, isso na contramão do sucesso avassalador de Pokémon GO, me fez perceber que eles estão perdendo tempo insistindo em anime. Faz um live action logo, porra! Mas tem que ser com um elenco amplamente idiota e sem qualquer sentido ou aplicação lógica. Tipo Jean Claude Van Damme como Ash, Pikachu sendo dublado pelo William Shatner, Brock vivido pelo Barack Obama, algo assim. Você já assistiu ao conturbado Dragonball Evolution depois de algumas cervejas e percebeu o como a vida é linda? Pokémon poderia superar isso e puta que pariu a vida já é séria demais pra algo assim não rolar.

E então percebi. Era isso! A vida é séria demais, eu fiquei chato, essas porras de dias burocráticos me transformaram em só mais um torcedor do Flamengo e meu cérebro perdeu a capacidade de pensar em algo foda o suficiente para introduzir propriamente o monólito do caos que é o belíssimo Turok: Dinosaur Hunter, lançado inicialmente em fevereiro de 1997 para o Nintendo 64. Como um legítimo filho dos anos 90, Turok sabe que mais importante do que ser bom é ser legal e ele definitivamente é legal. As prioridades eram perfeitas naquela década, mas o tempo infelizmente passa, né? O jogo é tão atual quanto Green Day, VHS ou ir na Saraiva para ouvir algum CD ao vivo do Iron Maiden. Como eu, Turok é uma triste relíquia de outra época, aquela época que hoje é debochada pelo Buzzfeed e descartada em caixas de papelão junto com seus disquetes e teclados amarelados. FDD? FDDEU ISSO SIM!

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Sua vida é legal, mas é legal nível “índio cheio de esteroides matando velociraptor com uma faca”?

Acima de tudo, que época maravilhosa! E o filhote masculinizado da Iguana Entertainment é um perfeito espécime de seus dias. Barulhento, desconjuntado e estúpido das melhores formas possíveis, jogar Turok novamente é um refresco para esses dias sérios. E você não precisa nem tirar seu 64 do armário graças às boas almas da Night Dive Studios que remasterizaram o jogo e relançaram para computadores modernos. Não entenda “moderno” como uma limitação para aqueles computadores ultra caros e cheios dos absurdos da Nvidia, meu notebook está só alguns passos acima de um micro-ondas e roda numa boa. A sensação de ligar o cabo HDMI na televisão, conectar o controle de PS3, deitar na cama, ver a animação inicial da iguana fugindo de machadinhos e flechas e num geral esquecer do mundo é catártica.

Acho que eu preciso ao menos mencionar a história, ela existe, apesar de ser absolutamente ridícula como era obrigatório nos melhores FPS. Você joga como Tal’Set na sua luta para juntar as peças da insólita arma Chronoscepter e então exterminar o maligno Campaigner. E é isso! Sem plot twists idiotas, sem personagens para você escoltar, sem mensagens de autoafirmação, nada! Simplesmente vá em busca dum troço que vai lhe ajudar a matar o vilão. Meu tipo de enredo. Ah, e você é o Turok do seu povo, embora eu não faça a menor ideia de que cargo político seja esse ou de quem te elegeu, mas eu vou deixar pros meus amigos antenados de Facebook me explicarem se ele estar lá é um absurdo ou não. É, não, eu faço isso quando estiver morto.

E morto você vai estar logo em Turok se ficar pensando bobagem e comendo mosca. Você começa no meio do mato munido de nada além de uma faca e um arco e flecha, mas logo você vai encontrando outras armas. Pistolas, espingardas, rifles, lança-granadas, bazuca, rola até um acelerador de partícula que faz algo constantemente muito divertido por todos os motivos errados. Dar um tiro de Fusion Cannon e admirar a destruição causada por ele é um deleite inesgotável. Aliás, a lista de personalidades doidas pra serem barbarizadas por Tal’Set é imensa. Você destrói hordas de caçadores, soldados do Campaigner, dinossauros, insetos, ciborgues, répteis, demônios, guerreiros ancestrais e até uns pregadores macumbeiros que se teletransportam e lançam um projétil violento na sua direção. Como deu para ver, esse é um mundo hostil e todo mundo quer te ver mais morto do que a carreira do Rafinha Bastos, então não hesite e atire em tudo que se mexe. Se não se mexer, atire também para garantir.

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Checkpoints = paraíso

O visual do jogo na época era algo de outro mundo, realmente parecia o pináculo da evolução humana. Hoje os gráficos inevitavelmente ficaram um pouco datados, mas os 8 enormes ambientes pelos quais você irá passar são bem distintos e recheados de pequenos detalhes que fazem esses labirintos parecerem locais que total existiriam em uma realidade paralela doentia. As fases são imensas e você vai precisar explorar tudo se quiser encontrar os pedaços da Chronoscepter ou as chaves que abrem os mundos seguintes. Esses de fato enormes ambientes são meio confusos, mas com o tab você aciona o mapa e fica mais tranquilo pra zanzar por aí. Os inimigos se regeneram no entanto, então tome cuidado com sua munição se você ficar se perdendo o tempo todo.

Algo que também serve de motivação para continuar chacinando essa vasta seleção que Turok lhe oferece é a trilha sonora. As músicas são sutilmente sensacionais. De início elas parecem tribais demais e não prendem em nada a sua atenção, mas logo elas ganham mais variações e as batidas sobem em peso e velocidade. No final, você está atravessando uma fortaleza impenetrável cheia de armadilhas e outros consideráveis perigos para a saúde e a música começa a ficar mais forte e mais forte segue ficando a medida em que você vai um por um subjugando todos os malvadões e sobrevivendo por pouco. É uma alegria tremenda, Dinosaur Hunter é difícil nas medidas certas, mas acima de tudo ele é satisfatório nesse sentido. Uma visita por essa terra poligonal de monstros e dinossauros sempre te deixa com uma sensação boa. Ei, a ideia dos videogames é essa, né?

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AH BONS TEMPOS DAS BOY BANDS

Na verdade, sensação boa de verdade é poder jogar essa obra-prima no seu computador sem se preocupar muito com problemas de compatibilidade ou com o cabo de força do seu N64 ainda estar funcionando. Claro que hoje em dia existem shooters mais bonitos, existem histórias mais profundas e a indústria cresceu consideravelmente desde 1997, mas não existe jogo muito mais divertido do que o primeiro Turok. A franquia voltaria em 1998 com Turok 2: Seeds of Evil que, como o nome talvez sugira, é uma sequência mais soturna e opressora, eliminando as florestas etéreas do primeiro e se passando em infinitos corredores metálicos e escuros. É absolutamente incrível também e logo será relançado também pelas pessoas caridosas da Night Dive. Outras sequências foram lançadas nos anos seguintes antes da série infelizmente cair na irrelevância, mas eu não sou tão familiarizado com esses. Eu joguei o Turok: Evolution de GBA e achei gloriosamente parecido com algo como Contra ou Metal Slug, ou seja, é impressionante e também bastante digno do seu tempo.

Antes de terminar, eu gostaria de destacar o excelente exemplo de minimalismo presente em Dinosaur Hunter. Além de grunhidos e gritos, seu personagem fala exatamente uma linha de diálogo no jogo todo. I AM TUROK. Talvez ele seja um Pokémon, eu não sei, mas pra mim isso é um convite perfeito pro jogo. Ele é ridículo, imaturo e completamente hiperbólico, mas ELE É TUROK então se permita celebrar como se fosse 1999.

Marcelo Shaw

Das cinzas tóxicas da Segunda Guerra do Vietnã, nasce um novo tipo de jornalista renegado. Parte homem, parte máquina, inteiro Cyber Commando.