Monte Resina: trio instrumental une stoner rock e metal alternativo

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Trio catarinense uniu dois estilos por meio de seus riffs e composições sem vocal (Foto: Reprodução/Leandro Wissinievski)

Agressão e peso a cada riff: assim é a música da Monte Resina, trio instrumental de Florianópolis que aposta em riffs rápidos e estruturas inusitadas, guiados por uma bateria ainda mais raivosa e por linhas de baixo marcantes. O grupo não tem vocalista, por isso as cinco músicas do EP Monte Resina (2014) se valem do stoner e metal alternativo sem vocal para criar o clima de imersão em um universo pantanoso e sombrio.

As músicas são rápidas (a mais longa com 5:15 minutos) e foram criadas através de riffs já prontos, que posteriormente foram lapidados e costurados para criar o equilíbrio entre cada uma das faixas que compõem o trabalho. “Esses riffs “brotam” de diversas maneiras… Às vezes o cara tá dando uma volta com o cachorro e vem na cabeça alguma coisa. Outros surgem quando o cara tá vadiando no instrumento”, comenta o guitarrista Paulo Douglas TefiliA transição entre um riff e outro foi a parte mais trabalhosa, que por vezes demandou meses. Toda a masterização e mixagem foi feita por Douglas em seu quarto (mesmo sem muitas noções de como se fazia isso), o que dá um ar mais espontâneo ao trabalho.

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Trio lançou cinco faixas em 2014 e prepara mais material neste ano (Foto: Divulgação/Monte Resina)

É difícil explicar o conceito do álbum, apesar de as músicas parecerem se complementar. Por exemplo: Masmorra Verruga, Semi-Império de Lontras, Formigas Parecem todos nomes de locais e personagens. Mas quem sabe se o EP realmente conta alguma história? A preocupação dos caras é apresentar um som que flutue entre diferentes sensações, então cada um pode interpretar do seu jeito. “Normal acontecer que, devido ao nível de abstração da música instrumental, as pessoas sintam que ela está passando alguma mensagem, mas ela é subjetiva”, comenta Paulo.

As músicas são feitas com base em discos que o grupo gosta de escutar – como os Kyuss, Queens of the Stone Age, Helmet, Red Fang, Melvins, etc, sendo Macaco Bong a única instrumental que os influencia.O objetivo é fazer uma receita só com os melhores ingredientes apresentados nesses discos, digamos assim. Mas claro que não é um princípio absoluto”, fala Paulo. “Nos shows, é um riff atrás do outro, fuzz e psicodelização do início ao fim”, complementa.

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As faixas alternam momentos de velocidade, com outros mais doom, marcados pela densidade e pelo fuzz dos pedais Big Muff de Paulo. A capa do EP também é uma homenagem aos músicos inspiradores: une elementos de Busse Woods, do Acid King, e de To the Center, do Nebula.

No momento, detalhes separam a banda do estúdio para a gravação do seu primeiro disco. Tudo já estava definido e as composições estavam prontas, mas o óbito do produtor no dia em que os trabalhos começariam atrasou o trio. (Off topic do Douglas: Gostaria de aproveitar o espaço para mandar nossas considerações aos amigos e família do Rafael Scopel, que era um cara muito gente fina”). Ainda falando de novidades: é provável que o primeiro clipe da Monte Resina saia também neste ano.

Ausência de vocalista transforma sonoridade da Monte Resina

Em meio à agitação e energia dos shows da banda, não é incomum ver um cara com uma camisa de força se balançando no palco junto com os músicos. É Jardel Beck, mágico profissional, que realiza o truque de escapar da camisa enquanto a banda toca Faca1993, canção ainda não gravada, mas já recorrente ao vivo. A música é bem lenta, o que cria a necessidade de utilizar outros artifícios para manter a galera animada. “Quando ele não pode participar dos shows a gente nem toca essa música”, comenta Paulo.

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O mágico Jardel Beck é figura garantida em Faca1993 (Foto: Divulgação/Monte Resina)

Esta parte tão particular da identidade do grupo veio por acaso: a ideia era de que a Monte Resina tivesse um vocalista. Afazeres de um brother do grupo o impediram de gravar os vocais dois meses antes do EP, mas ao invés de substituí-lo, a banda resolveu gravar sem letra mesmo. “Sabíamos que o fato de não ter vocal na banda não era motivo para ela não existir”, comenta Paulo. O grupo definiu que continuará instrumental, mas quer contar com a participação do amigo em uma faixa, no futuro. Na prática, além de dar uma cara totalmente diferente à banda, a opção de seguir sem vocalista fez com que eles buscassem outras alternativas musicais e no palco.

Por não ter vocalista, a regra da Monte Resina se tornou “não repetir muito as partes da música pra não encher o saco” e usar de estruturas pouco convencionais, como as sem refrões, por exemplo. “Não dá pra segurar o mesmo riff por muito tempo. A música instrumental demanda bastante variações”, explica o guitarrista. Isso também significou algum retrabalho de adaptar os arranjos para a versão sem voz.

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“Merry muffmas and a Happy fuzz year!”, diz a banda no Facebook em brincadeira sobre o uso dos pedais (Foto: Reprodução/Leandro Wissinievski)

Além do vocalista, mais três músicos já passaram pela banda. Paulo Douglas (guitarra) e Cainã Almeida (baixo) foram os fundadores, que se juntaram para compôr unindo os gêneros preferidos de ambos: o stoner de Paulo e o grunge/garage de Cainã. O trio se estabilizou apenas com a chegada de Ricardo D’Almeida (bateria), em junho do ano passado.

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Paulo Douglas Tefili: “Nos shows é um riff atrás do outro, fuzz e psicodelização do início ao fim” (Foto: Reprodução/Leandro Wissinievski)

Em Santa Catarina, cena autoral ainda engatinha

Todos já tocaram em outras bandas, mas nenhuma delas deu certo (à exceção de Ricardo, que ainda é guitarrista de outro grupo). “Contribuiu para evolução como instrumentistas e compositores, além de ter sido bom pra perder o cabaço de apresentações ao vivo”, explica Douglas. Eles já tocaram autorais e covers além da Monte Resina, o que deu corpo e experiência na cena independente de Santa Catarina, mesmo com a curta duração destes experimentos musicais e os poucos shows realizados.

A visão de Tefili é de que o rock instrumental é bem aceito pelo público, mas há poucas bandas fazendo esse tipo de som, em comparação com o metal extremo. “Há mais demanda do que oferta no underground daqui, com certeza”. A cena stoner, entretanto, ainda caminha devagar no estado, dominado por apresentações de covers – crítica feita por músicos autorais de diversos gêneros aqui em Santa Catarina e não só desse gênero.

Isto se reflete também na organização de eventos voltados a este estilo e em locais apropriados para receber as bandas. Ele comenta que em muitos casos a própria banda tem que fazer todas as correrias para que os shows aconteçam, já que há falta de quem se dedique apenas à isto. “Mas as oportunidades vão aparecendo aos poucos. Não é o fim do mundo também”, conforma-se. Em uma destas oportunidades, a Monte Resina dividiu o palco com a The Flying Eyes, em evento do Música Ofensiva e do Treze Bar.

Diante deste cenário, a Internet aparece como grande aliada para a difusão do rock autoral catarinense, e ajuda a fortalecer a cena pelo contato com bandas de outras regiões. “Assim o impacto da fraca cena local nas oportunidades é melhor. Conhecemos várias bandas correlacionadas por causa das redes sociais e estabelecemos contato”, comenta.

Pois é, cabou o rolê do stoner. ): Se liguem nas outras bandas que passaram por aqui:
PR: Red Mess: prog e stoner caminham permeados pelo caos
RS: Cattarse: Libertação da alma através do rock pesado gaúcho
Mas esperem mais entrevistas aqui no Randomiza. FLW e comentem se quiserem mais!

Elyson Gums

Estuda jornalismo porque não deu certo como zagueiro. Gosta mais de batata do que de estudar, e assiste muito desenho e filme pastelão.