Modernidade, nostalgia e ódio eterno ao futebol moderno

Entrevista bem indie e cheia de bordões futebolísticos com Kílary Burtet, guitarrista da Não ao Futebol Moderno

Colaboração: Luccas Dardes

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Aí os menino alternativos e fãs do futebol roots (Foto: Reprodução/Tuany Areze)

Ódio eterno ao futebol moderno. Saudades, Adriano Imperador, chuteira preta, Romário e Bebeto. Época de sangue, raça e amor à camisa, quando o futebol era puro. Não ao Futebol Moderno é um elo interessante entre a cultura do futebol não-elitizado e da música. Sobretudo, porque em nada os sons lembram esse perfil que exalta atletas como o VOLANTE COICITO™.

Vida que Segue (2016) é o primeiro álbum da banda, lançado algumas semanas atrás. Com uma estética predominantemente monocromática, as letras e musicalidade estão alheias ao anti-modernismo defendido por alguns grupos de torcedores. Em geral, não há referências futebolísticas além do nome e os anos 90 ficam só no emo mesmo.

As temáticas são pessoais e dizem respeito ao cotidiano. “Cantamos sobre a gente, então não tem como fugir muito dessa carga emocional”, diz o guitarrista Kílary Burtet. O foco é, justamente se aproximar do coloquial. Que jovem adulto nesse mundo não se identifica com Cansado de Trampar? “Penso ainda não chegamos onde a gente quer com as letras, mas tamo tentando”.

Em 2014, veio o EP Onde anda Chico Flores?, citando o zagueiro campeão da terceira divisão espanhola, hoje no ostracismo do mundo árabe™. Houve bastante mudança desde então – musical e pessoal, destaca Kílary. O amadurecimento é nítido, sobretudo no experimentalismo. É como se as músicas tivessem várias caras diferentes, mas fossem apresentadas sob uma mesma ótica.

Além de muitas caras, muitas vozes. A escolha por envolver os vocais de todo mundo é inerente ao processo de composição da banda. “Algumas músicas, um de nós chegou com um riff e trabalhamos em cima dele, outras fizemos direto todos juntos, e uma que outra o marco construiu a estrutura da música inteira e nos mostrou e daí mexemos uma coisa aqui e ali quando estávamos ensaiando”. Aí acabou sendo natural todo mundo cantar.

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Essa moça é a modelo da capa de Vida que Segue (Foto: Reprodução/Não ao Futebol Moderno)

Volta, Futebol!

Quem espera por referências diretas ao zagueiro De León sangrando em campo pode ficar decepcionado. Convém explicar para os desavisados que uma das correntes de pensamento dos odiadores do futebol moderno é a exaltação à força bruta. Não violência propriamente dita, embora alguns passem dessa linha. Além do zagueiro tricolor, outros exemplos são a celebração dessa tatuagem de uma expulsão no Campeonato Turco e a festa das arquibancadas no Leste Europeu.

O nome da banda não é pelo meme (como eu pensei  da primeira vez que ouvi, diga-se de passagem). Os três gremistas e o corinthiano que compõem a banda não curtem muito o tal futebol moderno™ mesmo. O guitarrista explica que a festa dos estádios acaba ficando de lado em prol de um esporte mais padronizado, “cada vez mais robotizado, sem espaço para tentar algo diferente e improvisar”.

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Sócrates moralizador™ e características que não vemos nos atletas de hoje (Foto: Sergio Goncalves Chicago)

No futebol, a cada dia aparecem mais craques – abraço, Higuaín. Na música, é o oposto, com uma produção mais descentralizada. “Dificilmente vai aparecer um grande ídolos para todos, mas agora se você procurar um pouco por aí, talvez tenha alguma banda fazendo uma sonzera no seu bairro”. Foram palavras do Kílary também isso da produção descentralizada, vale destacar.

No meio desse cenário de transformações, música independente e arenas sem identidades claras, os amigos se uniram pra tirar um som diferente do que faziam até então. A banda foi formada em 2014, passou por mudanças de formação e hoje é composta por Kílary Burtet, Felipe Vicente, Marco Bueno e Pedro Appel. “A gente se conhece tudo há bastante tempo já, o Felipe conheço há quase 15 anos já, temos outra banda juntos também, a deathbythecolt, o Pedro também, nem sei direito como e quando foi mas já deve fazer uns 7 anos, e o Marcão há uns 4 ou 5 anos”.

A fase agora é de promover o disco novo, também lançado pela Umbaduba Records, com uma tour por vários estados. Ah, fiquem no aguardo de lançamentos físicos também.

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Fica de olho aí nas datas! (Reprodução/Umbaduba)

Encerramos com essa reflexão do Não ao Futebol Moderno: “Um recadinho de uma placa de caminhão que li, e que me fez refletir: “não tenha medo da loucura”. E tenham cuidado com a bateção de pino.”

Elyson Gums

Estuda jornalismo porque não deu certo como zagueiro. Gosta mais de batata do que de estudar, e assiste muito desenho e filme pastelão.