Guerra do Vietnã impulsiona movimento de contracultura

Há quarenta anos, dois assuntos dominavam as manchetes norte-americanas. Os cabelos rebeldes e sons distorcidos do rock n roll, repleto de mensagens questionando valores tradicionais e promovendo a rebeldia da parcela mais jovem da população. Do outro lado, um dos mais questionáveis confrontos armados da história: a Guerra do Vietnã. Em 30 de abril de 1975, Richard Nixon negociava a retirada das tropas norte-americanas da Ásia.

Antes dos artistas, é importante frisar que a sociedade civil como um todo se levantou contra o sistema. A comunidade negra se ergueu nas faculdades. A poluição e o uso de pesticidas atentou para a necessidade de um mundo mais saudável. O avanço tecnológico também contribuiu: as rádios e televisões, emergentes ao final da 2ª Gierra Mundial, foram essenciais para dar voz a nomes que pautaram a luta por uma sociedade mais justa. Este panorama deu surgimento a um forte movimento de Contracultura na década de 1960.

Pelo Trabalho e Liberdade, Marcha de Washington reuniu líderes contestadoers

O período pós-guerra era de tensão. A conjuntura global encaminhava o embate entre Estados Unidos e União Soviética, e a recepção a um novo conflito foi obviamente negativa. A Guerra do Vietnã foi um importante propulsor da cultura , já que escancarava os problemas da sociedade ocidental e fazia necessária a vontade de mudar. A imprensa e a comunidade artística exaltavam as mazelas e o pedido era um só: make love, not war.

Este cenário estimulou lideranças e correntes de pensamento. Mencionando apenas alguns dos reflexos da luta: o feminismo, a mídia alternativa, além de revoluções no cinema e na música. Como o texto já sugere, analisaremos a importância de músicos no período de guerra. Jim Morrison, John Lennon e Bob Dylan são três nomes marcantes por sua ideologia política e forte influência mesmo após a virada do Século.

Movimento Hippie reuniu a paz e a arte da contracultura

Dilema familiar de Jim Morrison

HWY (1969)

O emblemático e polêmico frontman do The Doors pode não ser o mais famoso, mas foi um dos principais nomes da época. Além do auge de sua banda coincidir com o período de guerra, uma ironia quase cômica marcou a vida do vocalista, de ideologia decididamente anti-guerra: seu pai participou do episódio que iniciou o conflito.

George Stephen Morrison era almirante da Marinha estadunidense durante o Incidente do golfo de Tonkin, considerado o estopim para o início da investida armada. Na ocasião, o navio USS Madox foi supostamente atacado por torpedos vietnamitas, dando início a uma retaliação norte-americana que terminou na morte de quatro marinheiros asiáticos. Esta versão não é confirmada, e há a hipótese de que tudo não passou de uma armação para que os EUA pudessem atacar.

Questionado ataque ao USS Madox iniciou investidas americanas

Jim e seu pai eram completamente diferentes. O Xamã prezava uma vida simples e longe dos conflitos, além de ter forte ligação com as artes. Além da música, escreveu poesias e frequentou o curso de cinema da Universidade de Los Angeles, onde foi colega de Francis Ford Coppola.

Por isso a cena de abertura de Apocalypse Now – eleito por críticos uma das melhores representações de guerra – ocorre com The End tocando ao fundo. A música não foi escrita para a Guerra do Vietnã, mas ainda assim vale conferir a explicação de Jim para a letra. “É estranho as pessoas terem medo da morte. Viver machuca muito mais do que morrer. Na hora da morte, a dor acaba. É, eu acho que (o fim) é um amigo”.

Guiados por Jim Morrison, composições do Doors exaltava a rebeldia da juventude

A mensagem anti-guerra da música do Doors questiona a racionalidade do conflito e vê a guerra com aspecto pessimista. Sua principal representação é Unknown Soldier, de 1968. A canção é uma crítica à alienação promovida pela mídia e a forma como retratavam a participação americana no conflito. Quatro décadas depois, o pensamento permanece atual.

A guerra já está perdida antes de começar. Os soldados sabem por que lutam? Eles sabem por quanto tempo estão no front? Que lição os jovens que cresceram nesse cenário vão aprender? Qual será o destino de quem foi para a linha de frente?

John Lennon e a busca por paz

A história marcou John Lennon como um homem da paz, sobretudo em seus anos finais de vida, quando protagonizou ações pacíficas clamando a paz mundial. John deixou a imagem de rebelde dos Beatles para assumir-se como uma forte figura pacifista, responsável por diversas ações anti-guerra e a favor da paz.

Um dos mais icônicos protestos do artista foi o chamado Bed-In, em lua-de-mel com sua esposa Yoko Ono. O ato foi realizado na Holanda e no Canadá, e consistiu em passar alguns dias sentado na cama falando sobre paz. Eles tentaram encontrar uma nova forma de promover a paz. John não gostou do resultado, uma vez que a imprensa não pareceu levar a ação à sério.

Semanas com Yoko foram a inspiração de composições importantes do ex-Beatle

O documentário The Us. vs John Lennon (disponível completo no youtube) mostra o lado ativista do personagem, que reunia multidões para protestar contra a guerra. Uma teoria da conspiração diz que o governo americano tentou espionar o músico, já que poderia ameaçar os planos vigentes de reeleição de Ricahrd Nixon.

John Lennon também teve grande envolvimento com a própria guerra do Vietnã. Em 1969 ele retornou seu título da Ordem do Império Britânico à Rainha Elizabeth como forma de protesto pelo envolvimento britânico no conflito. Suas palavras foram: “Vossa Majestade, retorno este título em protesto contra o envolvimento Britânico na coisa da Nigéria-Biafra, contra o suporte da América no Vietnã, e contra Cold Turkey descendo no Single Charts. Com amor, John Lennon”.

Desejo de paz era a chave da ideologia de John Lennon

As canções de maior identificação com sua figura são justamente os gritos por paz. Imagine e Give Peace a Chance exaltam a visão de mundo de John: as palavras serviam para inspirar a busca pela paz através da emoção de cada um que ouvisse a música. John Lennon queria criar a paz a partir de sua obra. A primeira música não estava ideologicamente ligada à Guerra do Vietnãm, mas a segunda canção permanece até hoje como um dos maiores hinos contra o conflito.

O espírito livre de Bob Dylan

Forte defensor da liberdade na década de 60, Bob Dylan foi um dos principais defensores das causas humanas nas contracultura e advogou por causas como Direitos Humanos, alem de ter sido um dos primeiros a perceber o engajamento que a música poderia provocar na sociedade americana e provocar a preocupação sobre o futuro.

Um dos mais memoráveis marcos da luta por direitos civis teve participação direta do cantor Folk: a Marcha de Washington, em 1963. O evento foi organizado por grupos defensores de direitos civis, trabalhistas, religiosos e do movimento negro, com o lema Jobs and Freedom. Martin Luther King encerrou a marcha com o discurso I Have a Dream.

Bob Dylan viajou os EUA com sua música engajada

Suas canções traziam questionamentos sobre o mundo e foi descrito por muitos como a voz daquela geração, devido à força de suas palavras. Entre 1962 e 1964 compôs as canções mais contestadoras de sua carreira. As mais famosas são Blowin’ in the Wind e A Hard Rain’s A-Gonna Fall, embora muitas outras faixas abordem questões sociais. Posteriormente, suas músicas foram perdendo o teor questionador, dando margem para críticos afirmarem que ele utilizou o contexto social para se promover.

Sua preocupação com a guerra fica clara com a música The times they are a-changin’, que faz referência direta ao conflito. A música foi lançada em 1963, pouco antes da revolta popular contra a ação dos EUA no Oriente. Nesta canção, lembrava dos soldados enviados à guerra. Em outras ocasiões, o folk levantava o temor para uma sociedade armada e pela corrida nuclear.

Diversos outros músicos fizeram frente à sociedade da época e também deram sua colaboração à contracultura – toda a comunidade Hippie e o Woodstock são exemplos clássicos. Mas isso fica pra outro dia.

Elyson Gums

Estuda jornalismo porque não deu certo como zagueiro. Gosta mais de batata do que de estudar, e assiste muito desenho e filme pastelão.