Era uma vez um zagueiro culto

Foto: Gilvan de Souza / Flamengo/ Divulgação
Foto: Gilvan de Souza / Flamengo/ Divulgação

Você sabia que tem jogador de futebol que lê Nietzsche e Schopenhauer?

O Wallace, zagueiro e capitão do Flamengo, acha tão legal ler, que resolveu tirar dinheiro do próprio bolso pra fazer uma minibiblioteca pra molecada da base do Flamengo. Ele comprou tudo, arrecadou livros e doou parte de sua coleção pessoal – que inclui Orwell, Bukowski e Ruy Castro.

Essa não é a primeira vez. É só digitar “Wallace livros” no Google que uma sequência de links relacionados aos hábitos extracampo do atleta aparece. Ele já distribuiu livros para incentivar os companheiros de time, e no começo desse ano lançou o site Wallace Leu, onde ele resenha algumas obras, como 1984, de George Orwell; O Homem que matou Getúlio Vargas, de Jô Soares; e Abusado, de Caco Barcellos.

E se eu disser que o Wallace não é o único? Ao contrário do que muita gente pensa, no futebol não tem só pagode, selfie e danone.

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Foto: Divulgação/Botafogo
Juan Mata, meio-campista da seleção espanhola e do Manchester United equilibra a carreira nos gramados com leitura e fotografia. Passou por cursos de Ciências do Esporte e Marketing. Além disso, enquanto era atleta da base do Real Madrid, chegou a cursar jornalismo. Um que tem diploma (e exerceu a profissão) é Loco Abreu, atacante uruguaio ex-Botafogo. Daí a desenvoltura na frente dos microfones.

O exemplo mais claro, porém, é o já falecido Sócrates, que carregou consigo o título de doutor por toda a vida. O paraense foi eleito pelo The Guardian um dos dez esportistas mais inteligentes da história.

Isso porque além de ser um dos maiores ídolos do Corinthians, era médico. Iniciou o curso de medicina aos 17 anos, enquanto era jogador do Botafogo de Ribeirão Preto, e se formou em 1977, sem interromper a carreira que levou suas palavras e pensamento às bocas de milhares, após sua transferência para o Timão, um ano depois.

Além da qualidade dentro de campo, uma das maiores virtudes do Calcanhar de Ouro era a consciência política. A barba e o punho cerrado na comemoração eram símbolo do posicionamento à Esquerda. Sócrates foi uma das lideranças da Democracia Corinthiana, movimento que instituiu voto igualitário para tomada de decisões dentro do clube, em meio aos Anos de Chumbo do Brasil. “Ganhar ou perder, mas sempre com democracia”.

Foto: Sergio Goncalves/Flickr

Se ainda assim te parece que todos os jogadores de futebol são amebas fora dos campos, é hora de rever alguns conceitos.

Elyson Gums

Estuda jornalismo porque não deu certo como zagueiro. Gosta mais de batata do que de estudar, e assiste muito desenho e filme pastelão.