Epifanias em HDMI: eu te amo Playstation

Frustrações, celebrações e outros pensamentos perdidos sobre cartuchos coloridos

 YUDIRealmente não tá fácil pros fãs de Playstation

Sabe, eu tinha pensado em fazer um texto sobre Donkey Kong 64. Eu tive o distinto prazer de zerar novamente esse conturbado jogo da Rare através do Virtual Console no Wii U, com 101% de progresso ainda por cima, e ultimamente eu venho sentindo que esse monumento do transtorno obsessivo compulsivo anda meio incompreendido. É triste que uma nova geração de jogadores de videogame (e eu quase falei gamers) tenha crescido sem conhecer a alegria de abrir a caixa do DK64 e se deparar com um cartucho amarelo. Aquele troço era incrível, ele automaticamente te fazia ser o garoto mais legal do seu prédio. A não ser que um dos seus vizinhos tivesse o Spider-Man que vinha num cartucho vermelho, nesse caso você estaria lutando uma batalha perdida e talvez devesse se mudar. Eu também tinha o Tony Hawk’s Pro Skater que vinha num cartucho azul, o que era histericamente tão legal quanto qualquer coisa nesse mundo, e o Majora’s Mask que vinha com um cartucho dourado e um adesivo holográfico. Bons tempos, Nicky, bons tempos.

Ainda assim, toda essa maravilha não me deixa bem humorado. Se falar de THPS não melhora meu humor, algo apocalíptico certamente deve ter acontecido. Bom, quase isso. A entrada de HDMI do meu Playstation 3 inexplicavelmente morreu hoje, não o cabo, mas sim a entrada em si. O que por si só não parece grandes merdas, mas eu demorei 2 anos pra descobrir que era isso. Só quando peguei o cabo componente que eu usava no PS2 que percebi o que estava acontecendo. Foi uma odisseia particularmente irritante, mas parece que eu vou ter que usar meu PS3 com cabo componente até mandar pro conserto, o que é sempre uma bosta quando você mora em Balneário Camboriú e suas opções são altamente limitadas, você simplesmente sabe que talvez ele volte com outros problemas.

A parte que joga sal na ferida é o como a imagem através do cabo componente é levemente pior do que a de HDMI. Ela não é pior o suficiente pra justificar jogar seu console pela janela, mas há uma queda impossível de ignorar em alguns pequenos detalhes na imagem. Isso sem falar na leve interferência que aparece na minha televisão quando a imagem está completamente escura, como uma lembrança constante de que você está usando sinal analógico e que estamos em 2016. Isso então te deixa em uma situação absolutamente inusitada. Você não quer mandar o console pra arrumar, sua coleção de jogos é grande demais para simplesmente deixar seu pobre Plays-ta-tion morrer em paz, e usar com cabo componente é uma experiência pior o suficiente para ser notada, mas não para te obrigar a fazer algo. Isso corrói sua alma.

ps3PORRA FEIO, COMO ASSIM ESSE GEORGE FOREMAN NÃO FAZ QUEIJO QUENTE?

Isso tudo me fez perceber mais uma vez que gostar de videogame significa obcecar por coisas pequenas que parecem irrelevantes para quem deu o azar de nascer sem o apreço por essa pela prática dentro de si. São os detalhes que te tiram o sono e isso é numa mesma medida absolutamente irritante e lindo. Claro, esse aparelho não vai durar para sempre e assim como você ele vai logo quebrar aos poucos. Sim, a tecnologia é assim solidária contigo, você não está morrendo sozinho, o aparelho no qual você jogou horas e horas de Demon’s Souls também está indo pro buraco. Estamos todos esperando o nosso asteroide, mas o que você vai fazer até lá?

Tudo o que eu falei até agora meio que reforça o estereótipo clichê do jogador de videogame, aquele ferrenho defensor de sua própria virgindade eternamente desajustado e incapaz de pedir pão na padaria sem ter uma fissura anal de nervoso. Mas da mesma forma que as pequenas coisas te deixam maluco, são elas que te fazem aceitar quem você é. Sim, eu estou esquisito. Sim, eu passo meus dias sofrendo por bobagens e olhando sites que vendem videogame mesmo quando eu absolutamente não tenho dinheiro para comprar nenhum deles. Não, eu não trocaria isso por nada nesse mundo. Porque eu tenho na minha memória esses cartuchos multicoloridos e coisas aleatórias como alugar Street Fighter II para SNES na ProGames e morrer de ansiedade para chegar em casa. Porra eu me lembro de quando eu comprei meu PS3 e como foi uma revelação jogar Uncharted pela primeira vez. É decepcionante ver ele quebrando aos poucos, mas ele me acompanhou em tantas aventuras que ficar bravo seria se permitir uma amargura que talvez não seja legal e nem necessariamente saudável.

No final das contas, acho que realmente não é sobre o que você tem ou não, mas sim sobre sua jornada até lá, sobre os momentos de alegria quando você finalmente mata aquele último chefe roubado em Mega Man Legends, puta que pariu. Então se você se irrita com coisas que ninguém mais se irritaria, encontre consolo no fato de que essas mesmas coisas te deram alegrias que ninguém mais teria. Milhões e milhões de pessoas jogam videogame no mundo, mas cada uma delas tem uma história própria. Cada uma delas tem a sua versão de jogar Shadow of the Colossus pela primeira vez e ficar embasbacado com aquilo sequer ser possível. Eu estou no meu terceiro Playstation 2 e ele está fazendo barulhos altos como quem me alerta de que em breve talvez seja hora de arranjar outro. Tough shit, mas eu vou eventualmente comprar outro. E outro. E outro. E quantos forem necessários sem reclamar, porque naquele dia perdido da minha adolescência eu joguei Shadow of the Colossus pela primeira vez.

ps2BORA LÁ NO CAMELÔ PRA COMPRAR O NOVO PES!!!

Esses dias eu estava conversando com um amigo meu que viu uma oferta de um Vita por um preço escandalosamente bom. Eu já tenho o meu Vita faz uns 2-3 anos, ainda o modelo com a tela gloriosa de OLED. Na hora, o meu amigo perguntou se biblioteca de jogos do Vita era boa. Isso é um pouco delicado. Tearaway e Gravity Rush estão no PS4, Golden Abyss é o pior Uncharted, Rayman e Child of Light estão presentes também em mais uma penca de consoles, Muramasa, Virtue’s Last Reward e Dragon’s Crown igualmente podem ser jogados em outros lugares, Deus, até o melhor jogo do console pra mim, Persona 4 Golden, é um port. Você tem jogos “menores” incríveis como Wipeout 2048, Killzone Mercenary, Freedom Wars e Ys, além de uma penca de jogos japoneses esquisitos que não são muito minha praia.

Não pude recomendar como algo absolutamente essencial assim a biblioteca do Vita, mas não quer dizer que eu tenha me arrependido de comprar o meu. Muitíssimo pelo contrário, valeu já pela sensação de terminar Persona 4 nessa versão bem melhorada que transforma um ótimo jogo em um dos melhores de todos os tempos. Valeu por ter chegado em casa e aberto a caixa e visto como o portátil é absolutamente estonteante, sério assim, o design do Vita é incrível e com certeza é para mim o console, portátil ou não, mais bonito que eu já vi. E a tela, ah, a tela! Eu ouvi que o segundo modelo tem uma tela competente e que as diferenças são poucas, mas a tela de OLED é absolutamente um desbunde e faz com que correr por todos aqueles corredores insanos em Rayman Origins seja um ataque aos sentidos da melhor forma possível. E por mais que o console tenha sido meio abandonado e tenha uma biblioteca meio limitada em alguns sentidos, ainda existem vários jogos que eu não conheço e que gostaria de ter no futuro. O que não é tão difícil considerando que tudo fica lindo numa tela de OLED.

psvitaTECHMOANING

O que eu quis dizer com tudo isso, eu acho, é que da próxima vez que seu console quebrar, não fique bravo. Dê a ele a aposentadoria que ele merece e procure um substituto. Ou não, sei lá, ou vá fazer coisas que gente normal gosta de fazer, tipo ler um livro ou falar mal de cidades que você não conhece. Caso você não veja graça nisso e prefira passar seu tempo atirando em demônios, afaste a negatividade, abrace a si mesmo e não se esqueça de que videogames são a melhor criação do homem de longe. Qual outro hobby te permitiria desfrutar de um cartucho verde, como era o caso de Rayman 2 e Battletanx Global Assault? Talvez ficar puteado num mundo onde existe Battletanx seja simplesmente excesso de preciosismo, evite isso e vá capinar um terreno. Ou conseguir 101% em DK64, dá no mesmo.

Marcelo Shaw

Das cinzas tóxicas da Segunda Guerra do Vietnã, nasce um novo tipo de jornalista renegado. Parte homem, parte máquina, inteiro Cyber Commando.