Co)))ltrane, o predestinado encontro entre jazz e drone

Através da internet, o dueto do sax de John Coltrane com o drone moderno e as paredes sônicas do Sunn O))) tornou-se possível

a4166086311_10[1]
Colagem dos hominhos de capuz do Sunn O))) e do Santo John Coltrane (Foto: Reprodução/Vamacara)

Quase cinquenta anos após sua morte, John Coltrane continua surpreendendo. No início do ano, a internet redescobriu as raízes do saxofonista com o drone. Nomeado Co)))ltrane, os mashups sobrepõem quartetos de jazz e as distorções do Sunn  O))), um dos mais proeminentes grupos a usar o drone-music no metal.

As músicas foram postadas em dezembro de 2015 e janeiro deste ano. Primeiro por Louis Scheuer no YouTube, depois em um EP de Vāmācāra, projeto de Atmospheric Black Metal canadense.

Co)))ltrane não é o unico projeto a unir elementos de drone e jazz, mas se destaca por criar a improvável combinação de dois expoentes em seus gêneros musicais, de gerações diferentes, e que pouca gente pensou em tocar em conjunto. O resultado, como não poderia deixar de ser, engrandece as duas obras – e não por menos foi apreciado pelo próprio Sunn e por Flying Lotus, sobrinho-neto de Trane.

Apesar de, a princípio, não haver porque fazer essa mistura, aos poucos as coisas se encaixam. O drone é um estilo particular e minimalista de música, presente em diversas culturas. De forma grosseira, consiste em música feita com pouca ou nenhuma variação de notas ou acordes, enfatizando a repetição destes.

Entre alguns artistas que utilizam estes elementos em suas músicas estão Kraftwerk (Alemanha), Sonic Youth (Estados Unidos) e Robert Fripp (Reino Unido). Mais recentemente, o Sunn O))) tornou-se referência no uso destas progressões repetitivas no metal. E além disso, é um dos únicos shows em que você precisa usar tampões de ouvido por causa do volume dos equipamentos.

Coltrane e o drone indiano

 

No fim dos anos 50, Coltrane foi influenciado por este estilo particular de música, embora isto não seja fato muito conhecido ou explorado. Seu free jazz entrou em contato com drones da música indiana, que ele posteriormente reproduziu em álbuns como Giant Steps (1960) e Impressions (1963). De acordo com estudos sobre a influência da Índia no improviso de Coltrane, Naima usa drones como base para desenvolver a música. Africa e India, duas composições de 1961, eram tocadas com dois baixistas para emular os drones vistos na música indiana.

Há outros exemplos, mas é difícil delimitar essa influência devido ao próprio estilo do músico, que brincava com as formas e jeitos de tocar e buscava constantemente desconstruir e reformular improvisações, escalas, acordes e notas. Em dados momentos, a improvisação era feita utilizando um conjunto pré-determinado de notas para alcançar o máximo de variações possível.

Por razões óbvias, Coltrane não ouviu o Sunn O))), mas Stephen O’Malley e Greg Anderson são grandes fãs de jazz. Entre os artistas preferidos estão Miles Davis, John McLaughlin, Weather Report, e, claro, John Coltrane. Mas, principalmente Alice Coltrane, musicista e uma das esposas de John. Alice, do álbum Monoliths and dimensions, foi uma homenagem à pianista e compositora.

Elyson Gums

Estuda jornalismo porque não deu certo como zagueiro. Gosta mais de batata do que de estudar, e assiste muito desenho e filme pastelão.