Cattarse: libertação da alma através do rock pesado gaúcho

Cattarse Show 8
Igor van der Laan: “Procuramos ilustrar, a cada música, nossos sentimentos mais profundos” (Foto: Cris Santoro)

O trio Cattarse resolveu fazer barulho também em inglês, com o single Meet me in the Darkness. Pela primeira vez, eles gravaram em outro idioma. O som é o mais novo trabalho do grupo, que já está consolidado como um dos principais nomes da cena independente do Rio Grande do Sul, representando o gênero stoner rock.

A recepção da faixa tem sido boa, o que dá maior liberdade para experimentações em outros idiomas, conforme explica o vocalista e guitarrista da banda, Igor van der Laan. Em entrevista ao Tenho Mais Discos do que Amigos, ele comenta que há mais músicas escritas em outros idiomas. Outro detalhe foi o clipe ser uma apresentação ao vivo. “Ficou algo seco, na cara, aquilo ali e pronto. Achamos interessante tentar trazer mais para a gravação o que fazemos nos palcos”, conclui o vocalista.

Parêntese válido para quem não conhece esse estilo: o stoner rock (“rock chapado”, em tradução livre) surgiu como movimento musical nos EUA, nos anos 90, capitaneado pelas bandas Kyuss e Sleep. As músicas deste gênero se caraceterizam pela densidade, em um peso – o que não necessariamente significa músicas rápidas – típica de clássicos dos anos 70, além de influências do hard rock, doom metal e toques psicodélicos. Into the Void, do Black Sabbath, talvez seja o primeiro stoner já feito.

Voltando à Cattarse: o trio é composto por Igor e por seu irmão Yuri van der Laan, no baixo, acompanhados de Diogo Stolfo na batera. Eles estão na ativa desde 2008, mas o embrião da Cattarse já veio no berço dos irmãos, já que o pai deles também tocava canções tradicionais riograndenses. No colégio, os irmãos passaram a se interessar por música e decidiram aprender a tocar. “Temos a Cattarse desde aquela época, em que a nossa única preocupação era tocar no show de talentos da escola”, diz o vocalista.

CATTARSE
Cattarse, da esquerda para a direita: Yuri van der Laan, Igor van der Laan e Diogo Sfolfo (Foto: Cris Santoro)

O grupo não foge muito das linhas acima, que descrevem o stoner, e segue uma face mais enérgica do gênero, apostando numa pegada mais pesada e agitada, repleta de fuzz – um tipo particular de distorção de som – e por riffs marcantes. As influências são variadas: embora em alguns momentos lembre o já citado Kyuss e o Queens of the Stone Age, a banda ainda ouve sons de diversas épocas, como o QotSA, Dead Weather, Led Zeppelin, Black Sabbath. “Ouvimos muita coisa velha, nova e de estilos bem variados”, diz Igor.

A Cattarse, obviamente, é mais que isso. Igor cita a importância de equilibrar os elementos das músicas no momento da composição. “Nos preocupamos em fazer a música desenvolver, ou também, fazer a “luz e sombra” da composição. Ter momentos que alternam da melancolia e melodia, para partes pesadas e densas, fazendo um “sobe e desce” e criando dinâmicas”, conta.

Cattarse Show 5
Em primeiro plano, os irmãos van der Laan em ação durante um show da Cattarse (Foto: Cris Santoro)

Um catarse musical com influências mitológicas

Nestes sete anos de estrada, os gaúchos gravaram o EP Certezas e um self-titled em 2014, contendo os dois outros singles da banda, Javali e Salamandra. Até o momento, o disco foi lançado apenas online. Agora, o próximo passo é a prensagem do material. O disco foi lançado pela gravadora independente The Southern Crown, e está disponível para download no site oficial da banda, junto de suas outras músicas.

O conceito do álbum busca referências na cultura grega. A começar pela palavra catarse, que também dá nome à banda: “na religião, medicina e filosofia da Antiguidade grega, libertação, expulsão ou purgação do que é estranho à essência ou à natureza de um ser e que, por isso, o corrompe”. “O objetivo da banda seria esse, a catarse através da música”, sintetiza Igor.

10487577_886734508007181_571249753941291926_n
Catarse sonoro é o objetivo da banda no palco (Foto: Cris Santoro)

É esta também a definição das apresentações da banda, como a live session de Meet me in the darkness: catártico. “Muita catarse em forma de música, com certeza! Procuramos ilustrar, a cada música, nossos sentimentos mais profundos. Gostamos de empolgar as pessoas e fazer um show que “pilhe” todo mundo”.

A banda apresenta estas influências através do teor filosófico e sentimental das letras, que abordam principalmente as neuroses humanas e os relacionamentos amorosos mal-sucedidos. “Me inspiro no cotidiano, em coisas que eu leio, vejo, escuto. É muito amplo isso, pois tudo pode virar estímulo para uma música, até coisas mais banais”, comenta Igor.

cover
Capa do álbum Cattarse, de 2014, ilustrando Caronte (Foto: Cris Santoro)

A capa do álbum, que mostra diversas mãos segurando uma máscara, (obra do artista plástico Tamir Farina) também tem relação com a Grécia Antiga. Esta máscara simboliza Caronte, o barqueiro do Submundo, responsável por transportar com segurança as almas para o Hades.

(Isto explica porque os três estão com moedas nos olhos na imagem de fundo do site, caso alguém tenha ficado curioso. Na Grécia Antiga, os mortos eram enterrados ou cremados sempre juntos de uma moeda, para que pudessem pagar a passagem para o Submundo.)

A cena independente na região Sul

O Rio Grande do Sul sempre é palco de bandas de rock que vêm para o sul do Brasil, e a Cattarse faz parte de uma nova leva de bandas fazendo música autoral na região. Igor cita outras bandas que movimentam a cena gaúcha: Space Guerrilla, a Wolftrucker, Mar de Marte, Walverdes, Urso, Teto, entre outras – “que talvez eu nem conheça ou tenha esquecido de comentar”. Indo ainda além, a cena autoral ferve também nas outras regiões e estados.

10989452_1080407245306572_6672940924833137745_o
Igor van der Laan em ação no festival Rock and Bira, em Porto Alegre (Foto: Reprodução/Cattarse)

“A cena independente daqui do sul e no resto do país está crescendo tanto, mas tantos, de uma forma que daqui a pouco vai ser impossível segurar essa galera toda. Estamos passando por um período bem animador e bem bom para a música independente”, analisa.

Falando de Stoner Rock, as principais bandas estão em Goiânia. A Black Drawing Chalks é uma das bandas brasileiras de maior reconhecimento no gênero, e a Hellbenders recentemente gravou no Rancho de La Luna, folclórico estúdio do Queens of the Stone Age. A Far From Alaska, de Natal, recentemente também recebeu atenção da mídia nacional, se apresentando inclusive no Lollapalloza.

Para quem tiver oportunidade e quiser acompanhar a Cattarse ao vivo: o próximo show acontece já no dia 14 de junho, em Porto Alegre. Eles tocam na STONER FEST junto com a Wolftrucker e a Space Guerilla. Pra fechar, a música Entre os dentes, do álbum Cattarse (2014).

Semana que vem tem mais stoner rock aqui no Randomiza. Vamos fazer um pequeno ~tour~ por bandas desse gênero aqui no Sul. Hoje foi o RS, a próxima será paranaense, e fechamos a trinca com uma banda de Santa Catarina. Fiquem ligados! (-:

Elyson Gums

Estuda jornalismo porque não deu certo como zagueiro. Gosta mais de batata do que de estudar, e assiste muito desenho e filme pastelão.